A primeira viagem de bicicleta - Parte 02

artigo publicado em 01/08/2016



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Em mar aberto

 

Nos aproximávamos, cada vez mais, da fronteira. Estávamos na metade da BR-471, que sai de Rio Grande e termina no Chuí – o ponto mais ao sul do Brasil, onde começa o Uruguai. Sabíamos se tratar de uma estrada com paisagem pouco atraente, muito comprida, uma reta interminável.

Se no dia anterior tínhamos rodado 135km com vento favorável, foi só acordar pra perceber que ele agora soprava do sul, fazendo força contra a nossa direção.

 

É frustrante botar uma bicicleta pesada na estrada, sabendo que faltam 104 km à frente, quando o vento reduz a sua velocidade para até 11km/h. E um cicloturista tem que estar preparado (sobretudo) psicologicamente pra climas adversos.

 

O corpo aguenta - o desafio real é domar a mente. As rajadas que sopravam contrárias naquele descampado me faziam pensar que eu estava em mar aberto. E pra vencer era preciso ter paciência, determinação – e um pouco mais de paciência. Cada giro de pedal é um pedaço de terra que deixamos pra trás, e outro que fica mais perto. A estrada é uma lição.

 

No caso de pedalar em uma rodovia com pouco movimento, uma dica para deixar a viagem mais animada e incentivar o pedal, é ouvir música. Foi o que fizemos até completarmos esforçados 40 km, num ponto da BR-471 em que há um restaurante com ar-condicionado e com almoço. Pausa valiosa.

 

Cada arbustinho da estrada parecia quebrar um pouco do vento sudeste que vinha contra nós. E cada instante desses era um alívio. Foi quando tive a ideia de pularmos para o acostamento da outra faixa, à esquerda, onde estaríamos mais próximos dos arbustos que barravam o vento. Atenção: nunca pedale na contramão. Mesmo que seja no acostamento, as razões para ir contra o fluxo de carros devem ser excepcionais. No geral, quanto menos movimentada a estrada, melhor.

Mas a ideia funcionou perfeitamente. Subimos pra 20 km/h e a maré psicológica com certeza havia virado. Sucesso! Quando caía a tarde, 105 km e um furo de pneu depois, chegamos a Santa Vitória do Palmar, onde o Pedro tinha casa de familiares.

 

No dia seguinte pisaríamos no Uruguai!

 

Cruzando fronteiras

 

Se você não for pelas compras, não recomendo parar na cidade fronteiriça do Chuí. Lugar abarrotado de lojas, movimentado, sujo e de restaurantes de preços abusivos.

 

E sobre a hora de passar na alfândega, vale lembrar o óbvio: não deixe, em hipótese alguma, de carregar passaporte ou carteira de identidade. As aduanas uruguaias ignoram a carteira nacional de habilitação do Brasil. São muitas as histórias de gente que tomou um famoso chá de banco ou ameaças de esperar “o sistema” liberá-lo horas mais tarde. A única solução pode ser aceitar pagar uma “churrascada” que o pessoal da aduana uruguaia às vezes exige.

 

Quanto a nós, é claro que não faltou foto em frente ao letreiro: República Oriental del Uruguay! Estávamos saindo do Brasil, de bicicleta! Mas o momento, para mim, não parecia tão extraordinário. Pelo contrário: depois de pedalar tanto para chegar ali, parecia tão natural estar cruzando aquela fronteira...

 

Lembrei de Antônio Olinto, o primeiro brasileiro que pedalou mais de 40 mil quilômetros em volta ao mundo. Quando voltou à sua cidade-natal, no interior de São Paulo, foi recebido como herói pela multidão. Embasbacado e coberto de lágrimas, Olinto explicou às equipes de TV como havia conseguido: “tudo o que eu fiz foi pedalar”.

 

Seguindo pela Ruta 9, 40km depois da fronteira, chega-se ao Parque Nacional de Santa Teresa – parada obrigatória para quem gosta de história, natureza e camping. Por 510 pesos por pessoa, aluga-se uma parcela común, terreno para acampamento sem luz – por um mínimo de três dias.

 

O parque tem praias, museu, jardins de inverno e verão, mirante de baleias, infraestrutura completa com mercadinhos, WiFi e caixa eletrônico, além do imponente forte militar de Santa Teresa, com séculos de história  - certamente o carro-chefe do lugar.

 

De onde montamos nossas barracas conseguíamos ouvir o ruído das ondas do mar. As fogueiras acesas com os galhos de eucaliptos do deixavam um arome característico no ar; e as centenas de papagaios verdes, tão famosos no parque, gralhavam boas-vindas do alto das copas.

 

Por isso tudo, Santa Teresa é um lugar que “mal-acostuma”: belos caminhos ladeados de palmeiras, pinheiros e outras árvores compridas. Nossa rotina foi praia de dia, cervejadas de Patrícia e ricos alfajores à noite!

Ah, e deixo aqui mais uma dica: a apenas 4km de Santa Teresa, do outro lado da rodovia, fica a enorme Laguna Negra, muito menos frequentada que o parque. Ótima para passar o dia e tomar um banho, ou mesmo para acampar pelos arredores.

 

A ponta do diabo

 

A 5 km do Parque de Santa Teresa fica o acesso para Punta del Diablo, nosso segundo destino em terras estrangeiras.

 

A praia é bastante conhecida no Uruguai, daquelas que há vinte anos devia contar apenas com hippies e surfistas, mas que hoje já está na moda, com muitas casas estilosas pra alugar e turistas de toda parte. Acho que o lado mais especial do lugar se perdeu no tempo e o pueblo ficou um pouco superestimado.

 

Mas vale conhecer a beira-mar com os barcos dos pescadores, comer uma empanada de mariscos e apreciar o artesanato local. O lugar está cheio de jovens e de estrangeiros. Achamos um hostel com boa infraestrutura e pernoite a 320 pesos (R$ 40).

 

Se for a Punta del Diablo no verão, não deixe de curtir a noite de lá. Os bares se enchem e músicos e artesões tomam conta das ruas. Nós acabamos conhecendo uma dessas: a simpática Mônica, gaúcha de São Leopoldo que foi para o Uruguai na sua Kombi personalizada, onde ela também mora. Mônica voltaria a ser uma personagem central da nossa viagem mais adiante.

 

Velas e brisas em Barra de Valizas

 

Janeiro terminava quando partimos novamente em direção ao sul. O próximo ponto de interesse era a famosíssima reserva nacional de Cabo Polônio – oásis civilizatório em meio a dunas e rochas onde vivem leões-marinhos. Não se chega lá de carro – nem de bicicleta.

 

Mas é possível alcançar o lugar a pé, saindo de Barra de Valizas - um pueblo que não constava no nosso mapa, a uns 55km de Punta del Diablo. Bem, se estava fora do mapa, era conosco mesmo!

 

A ruta 9 nos levou até Castillos, simpática cidade onde paramos para almoçar. Recomendo o milanesa al plato com purê de batatas do restaurante A Mi Gente, onde fomos muito bem atendidos.

 

Dali tomamos a ruta 16, a primeira estrada da viagem sem acostamento e com aclives inesperados. Em seguida, a ruta 10 – uma das rotas balneárias do Uruguai.

 

Não sabíamos o que esperar de Barra de Valizas, povoado à beira da praia, sem asfalto, com o espírito hippie que nos pareceu faltar em Punta del Diablo. Na praça principal, algumas pessoas nos direcionavam palavras - e por isso não esperei nem dois minutos até puxar papo com uma menina sentada num banco.

 

Era Cynthia, que com uma enorme simpatia rapidamente elogiou a beleza da Quimera e Absurda. Logo percebi que ela tinha uma bicicleta tatuada no braço. Enquanto me passava um mate, Cynthia nos contou sua paixão por bikes e pela Massa Crítica de Montevidéu. Puxa, que feliz encontro no nosso caminho!

 

Cynthia nos indicou um camping que recebia bicicletas e nos acompanhou pelo povoado de Barra de Valizas à noite, quando o lugar ganha uma energia contagiante! Justamente na época da época da nossa estadia, acontecia o Festival del Movimiento, evento cultural na feira de artesanías.

 

Sentamos na arena para acompanhar um atmosférico show de flamenco, danças ao som de violino, violões e canto, números de malabarismo com fogo. Foi inesquecível. Um astral diferente de tudo o que já tínhamos visto. Um festival de música em forma de cidadezinha. O pueblito de Valizas se mostrou uma linda surpresa!

 

Fomos dormir animados com o dia seguinte, em que iríamos até Cabo Polônio, lugar de inigualáveis histórias...



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