Vales e Serra Gaúcha - parte 1

artigo publicado em 30/09/2016



voltar

Tem muito cicloturista mundo afora subindo os Andes, as montanhas da Ásia ou os morros do Brasil. E esse pessoal leva bons quilos de carga. Só de ler já deu cansaço?

 

Eu e meu amigo Lucas resolvemos nos iniciar nas viagens de subida e descida. O roteiro escolhido foi passar por alguns dos vales do Rio Grande do Sul e pela famosa Serra Gaúcha. A parte boa é que seria uma região pertinho de casa, altamente turística e com hospitalidade local.

 

Aproveitar desde o primeiro dia

 

Decidimos partir longe de Porto Alegre, pois a região metropolitana tem trânsito intenso e é cicloturisticamente dispensável – eu garanto! Assim, tomamos um ônibus até Venâncio Aires, a duas horas da capital.

 

Tínhamos pouco menos de duas semanas para viajar e o plano era... não ter planos! Conforme fôssemos viajando, decidiríamos para onde seguir. Tínhamos apenas um ou dois pontos de interesse dos quais não abrimos mão: um deles era o impressionante Viaduto 13, na cidade de Muçum.

 

E foi mirando Norte, na direção de Muçum, que saímos de Venâncio, às 11h. Clima de inverno, visibilidade média. A RSC-453 nos deu tráfego médio, bom acostamento e, acreditem, muito cheiro de churrasco ao longo da estrada, naquele domingo, 10 de Julho.

 

Foram 32km até a maior e mais importante cidade do Vale do Taquari: Lajeado, onde chegamos às 14h, já descobrindo uma das constantes do interior gaúcho: é difícil encontrar almoço e janta fora de hora! Foi com ajuda de um frentista que encontramos um lugar para comer. E depois passeamos no Parque dos Dick.

 

Às 16:30 engatamos o pedal para a próxima cidade no mapa: Arroio do Meio. Tínhamos ouvido alguma coisa sobre uma ponte de ferro.  A ideia pareceu boa. Mas seguindo pela BR-130 não se encontra a ponte – só tráfego intenso. Recomendo pegar a longa rua Alberto Pasqualini. Ela tem tráfego mínimo e até ciclovia!  No fim está a tal ponte de ferro e em piso de madeira! Ela já foi até cenário de filme, sabia?

 

Ainda passam carros sobre ela, mas quem mais estava por ali na nossa chegada eram instrutores de salto-pêndulo! E sem pestanejar, meu amigo Lucas largou a bicicleta, conversou com um dos instrutores e me disse: “vou saltar!”.

 

O sol já caía quando, bem atado e posicionado a 20m de altura sobre o pilar de concreto da ponte, Lucas saltou. Amarrado pela corda que fez dele um pêndulo humano, ele balançou num vai-e-vem sobre as águas da barra do rio Forqueta – até ser resgatado de bote.

 

Confesso que me faltou coragem. Mas já adianto: eu ainda iria me redimir (com sobra!) na viagem. Um grande primeiro dia!

 

 

Águas que caem no Arroio do Meio

 

Chegamos em Arroio do Meio antes das 18h e o céu já tinha escurecido – uma desvantagem de se viajar durante o inverno. Demos uma volta até achar um local que pudesse servir de “pouso” para a noite. Na rua lateral à igreja, minha visão identificou rapidamente um espaço amplo e recuado, com grade e algumas marquises: o estacionamento da paróquia!

 

Uma conversa aqui, outra lá – e foi preciso esperar o padre terminar a missa para pedir autorização de montar as barracas sob um telhadinho de Brasilit. Tudo certo para nós! Cozinhamos uma massa com nosso equipamento, Lucas nos serviu um pouco de cerveja e brindamos ao primeiro dia de viagem!

 

Mais tarde, a madrugada me acorda: chuva forte! Até demais. Abro o zíper da barraca e constato os pedregulhos de gelo quicando. Granizo!

 

Abençoado seja o padre Alfonso, sua paróquia – e o telhadinho de Brasilit!

 

A chuva só deu trégua às 15h do dia seguinte. Mas numa viagem como a nossa, nada seria por acaso: a longa espera que fizemos na rodoviária de Arroio do Meio nos fez conhecer uma simpática anônima. Ela nos dá um contato em uma bicicletaria no nosso próximo destino...

 

 

Encantado

 

24km depois, chegamos em Encantado. Visitamos a Igreja da Matriz, que tem bonitos vitrais, e seguimos para a tal Giros Bike. Imediatamente, fomos recebidos por uns seis parceiros de pedal que nos deram toda a ajuda: além de dicas, nos forneceram um lugar para deixar os alforges em Muçum e indicaram um local para dormir em Encantado: o Hotel Rizzi. A administradora de lá, a Adriana, nos fez até um desconto!

 

Aliás, quem apareceu mais tarde no hotel foi Cristiano – um dos caras que estavam na bicicletaria. Ele veio nos mostrar fotos do Viaduto.  Junto com ele, eu e Lucas fomos convidados ao galpão da família Rizzi, atrás do hotel, onde fomos recebidos com algumas cervejas pelo irmão de Adriana, a figuraça apelidada “Espaia-Brita”! Legítimo gringo da serra, daqueles que dizem “porco dio!”. Espaia-Brita nos contou de suas andanças e outros causos, e nos disse algo muito apropriado já para aquele segundo dia de viagem: “conhecer os lugares e viver as experiências não tem preço”. Uma noite para lembrarmos!

 

 

Muçum: como ficar sem palavras, três vezes em um dia.

 

Manhã. RS-130. Neblina. Felizmente foram apenas 12km até Muçum. Por (mais uma) indicação do Cristiano, fomos até o Hotel Marchetti, onde nos permitiram deixar os alforges durante nosso passeio até o Viaduto 13. Assim poderíamos pedalar uns 15kg mais leves!

 

O V13 é apenas um dos cerca de 40 viadutos férreos construídos ao longo da chamada Ferrovia do Trigo – mas é o mais famoso por se tratar do mais alto da Américas e o segundo do mundo: 143m! E de comprimento, quase meio quilômetro!

 

Estávamos animados para vê-lo e ainda mais animados para subir até a linha do trem. Saímos às 09:40 do Centro. O céu nublado começava a abrir-se. Até chegar ao viaduto teríamos 19km de estrada sem asfalto - a maioria de chão batido. Mas percorrer o Vale do Guaporé foi lindo demais! Costeamos o rio, que estava movimentado por causa da chuva de dois dias antes. Pequenos córregos desciam das encostas, trazendo o ruído da água corrente para o nosso passeio. As casas da zona rural, a fumaça que subia das chaminés, as nuvens que encobriam os cumes, as árvores de limão-bergamota e a vegetação verdejante completavam o cenário. Vale a penar ir parando para tirar fotos e descobrir os cantinhos desse roteiro. E pelo caminho dá pra avistar alguns dos outros viadutos da ferrovia também.

 

Chegamos na base do V13 ao meio-dia. Existe bem ali um quiosque que oferece lanches e internet sem-fio aberta. Foi onde deixamos as bicicletas. Ainda é preciso subir 200m, a pé, por uns dois quilômetros, até alcançar a linha.

 

E enfim chegamos, comemorando! Era dia útil e ao contrário do fim de semana, quando cerca de 400 visitantes costumam estar ali, estávamos sozinhos! Exploramos a escuridão do túnel do V13 e os parapeitos do viaduto. A neblina tinha sumido e agora podíamos ver os morros, o rio Guaporé e as paisagens em volta. Perfeito!

 

E em vez de voltar, seguimos caminhando pela linha férrea, na direção em que tínhamos vindo. O comboio do trem até costuma passar nos trilhos ainda, mas em poucos horários – por isso não tivemos o prazer de vê-lo.

 

Uns 20 minutos depois, chegamos ao viaduto 11. Que não tem nem parapeitos nem piso concretado - apenas  vigas e madeirame vazado sob os trilhos! Um desafio!

 

Eu e o Lucas demos algumas caminhadas curtas sobre o madeirame – coisa que eu não sei se recomendaria, tão grande foi a vertigem. É fundamental ter atenção e prudência - mas caminhar no V11 foi muito mais divertido que no V13! Inesquecível!

 

 

Descemos. E voltando para Muçum, procuramos almoço. Pedimos por informações e um homem nos indicou o casebre de madeira da sogra, Nonna Maria! E com uma gentileza comovente, sua família nos recebeu. Em particular, Nonno Domingo, que fez questão de brincar conosco: “pra mim é sempre domingo!”. O almoço foi farto e caseiríssimo: queijo frito, arroz, carne, polenta e  salada.

 

Nonno Domingo ainda nos mostrou o alambique que utiliza para destilar cachaça artesanal, do alto de seus 73 anos. Nonna Maria ficou contrangidíssima de nos cobrar alguma coisa – mas tivemos que insistir para retribuir de alguma maneira. Foi um momento muito especial. Obrigado, Nonno, Nonna e família!

 

 

 

De volta ao Centro de Muçum, começamos a procurar lugares para passar a noite. Perguntamos no hotel, nos apresentamos na farmácia... Pedalamos até achar os candidatos: o estádio municipal, a praça em frente à Brigada Militar e o posto de gasolina na entrada da cidade. Como esse último tinha chuveiros, foi o escolhido. Estávamos a meia-quadra de distância dele quando um carro estaciona em frente a uma casa. Quem sai dele é Rafael, funcionário da farmácia em que tínhamos estado.

 

Ele nos aborda: “Vocês tem lugar para dormir, gurizada?”

 

Explicamos a situação e o Rafael emenda: “que posto, nada! Se for tranquilo pra vocês, tem os fundos da casa, aqui”.

 

E aos 47 minutos do segundo tempo, o jogo vira! Incrível! Viajar podendo viver surpresas desse tipo, que acontecem a qualquer instante, é muito emocionante. Claro que topamos na hora!

 

Lucas e eu mal acreditamos: os fundos da casa eram um galpão que servia para a confraria do Rafael e seus amigos. O lugar tinha fogão campeiro, internet sem-fio, sofás, louça à disposição e até som ambiente. Praticamente um hotel cicloturístico!

 

Chegaram dois amigos do Rafael: Marcelo e Cascata. E nosso anfitrião revelou mais uma de suas qualidades: mestre-cervejeiro caseiro, artesanal! Imediatamente, Rafael trouxe algumas de suas criações. Todos brindamos! Eu e Lucas cozinhamos e o fogão campeiro aquecia todo mundo. O som subiu e a conversa andou solta! Uma incrível e inesperada noite de hospitalidade, amizade e risadas. Estávamos em casa. Muito obrigado, Rafael!

 

Depois desse episódio, o Lucas resumiu bem a lição. Com sabedoria, ele me disse assim: “para que os outros se abram para você, é preciso que você se abra para eles”.

 

O mundo é bom!

 

E a viagem estava só começando...

 



Recomendados para você

Receba promoções em seu e-mail

Junte-se a mais de 20.000 leitores e receba preço de viagens em promoção, artigos e notícias sobre turismo alternativo.

Publicidade