Vales e Serra Gaúcha - parte 2

artigo publicado em 11/10/2016



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Monte Belo do Sul e a serra italiana

Saímos tarde de Muçum, cruzando o Taquari, e pegamos uma estrada de chão que segue o fluxo do rio. Trecho de chão batido com subidas fortes! Deu tempo de pedalar os 25km até a bucólica Santa Tereza, cidade simpática com prédios antigos, camping municipal, algumas áreas de lazer e pontes pra se visitar. Menos de dois mil habitantes.

 

 

A previsão era de muita chuva nos próximos dois dias. Também tínhamos a informação de que o próximo trecho, até Monte Belo do Sul, era de uma subida forte: cerca de 10km sem trégua na elevação. Subir aquilo com tempo ruim não nos animou.

 

Mas às 18h sairia um ônibus que poderia nos levar até a entrada da cidade. Foi o que fizemos – e posso dizer que não nos arrependemos.  Já era noite quando descemos no entroncamento da RS-444. Pedalamos até o pacato centro de Monte Belo a tempo de nos hospedarmos no hotel Bruschi.

 

O dia seguinte foi de repouso forçado em razão da chuva incessante. Demos um pulo na paróquia de São Francisco de Assis e no clube da cidade. À noite pedimos ao pessoal do hotel para usar a cozinha. Quem nos atendeu foi Mari, proprietária, que começou, aos poucos, a puxar conversa...

 

Acabamos jantando todos juntos, ali mesmo. Eu e Lucas fizemos um carreteiro de linguiça campeira e Mari entrou com a salada e com o vinho preparado pela própria família! A melhor janta da viagem inteira!

 

O Vale dos Vinhedos

 

Enfim, dois dias depois, a chuva cessou. Saímos de Monte Belo com as bicicletas carregadas. Evitamos o asfalto e pegamos uma saída de chão batido. Os morros, ainda cobertos de neblina, estavam silenciosos. Lá e cá despontavam algumas vinhas e bergamoteiras. Quando o sol começou a sair vimos à nossa frente o famoso Vale dos Vinhedos!

 

 

Foram sete quilômetros tranquilos, sem a companhia de nenhum carro, em que avistamos as primeiras vinícolas da região. Voltamos ao asfalto só para visitar a grande Miolo.

 

Perguntamos à portaria se podíamos entrar com as bicicletas. “Claro. Podem dar uma volta, sim”. No pátio, duas placas: à esquerda “Centro de visitantes”; e à direita, “Laboratório”. Lucas e eu avistamos a horda de turistas descendo dos ônibus, se dirigindo à recepção, e em seguida nos olhamos, como quem pensa a mesma coisa. Seguimos para o laboratório!

 

Passamos por uma funcionária, um corredor aqui, uma porta ali... E de repente estávamos não no laboratório, mas na área administrativa da Miolo! Uma funcionaria nos abordou. Olhando para os nossos trajes de ciclismo e o capacete na cabeça do Lucas, ela perguntou o que estávamos fazendo ali.

 

“A gente queria visitar o laboratório, que é a parte mais legal” – nos justificamos.

 

“Olha, eu vou ter que chamar alguém pra acompanhar vocês.”

 

Não sabendo se ela queria dizer “acompanhar para fora daqui”, eu e o Lucas ainda dissemos: “a ideia era dar uma olhada rápida, nada demorado!”

 

A funcionária respondeu: “Sim, claro. Vocês não podem sair com uma imagem ruim da gente”.

 

E assim começou nosso rápido tour VIP pela Vinícola Miolo. Em questão de minutos uma senhora em jaleco branco chegou para nos apresentar, enfim, ao laboratório e seus microscópios, leitores, frascos, placas e medidores.

 

Distraídos com a colônia de leveduras que enxergávamos a olho nu, alguém atrás de nós disse algo em um sotaque estranho. Era Miguel, um português muito animado por termos vindo de bicicleta, que iria nos acompanhar pelo resto do trajeto. Miguel era, ora pois, um dos dois enólogos responsáveis pela produção da víncola inteirinha! O alquimista-chefe, o representante maior da magia de Baco.

 

E lá fomos nós. Passeando entre os tanques de alumínio até o centro de distribuição, Miguel foi respondendo a todas as dúvidas que tínhamos. Gentileza pura!

 

Depois, ainda fizemos uma degustação na Vinícola Barcarola, almoçamos na Cantina Giovanini e visitamos o criadouro Cogumelos da Serra, onde nos abastecemos de champignons! Saímos de lá pela RS-444 e BR-470.

 

Ah, o Vale dos Vinhedos é uma região pouco plana. Por isso, planeje bem a sua rota para não cansar demais e ficar pelo caminho.

 

Garibaldi

 

Encaramos uma subida lenta e progressiva de quase 5km mas enfim chegamos à Garibaldi, já à noite. Utilizamos nossas luzes piscantes e coletes reflexivos – itens raros de se usar, mas que podem fazer toda a diferença numa estrada escura.

 

Cascata, o amigo do Rafael, de Muçum, nos havia indicado o Bar do Joe, tradicional ponto de Garibaldi. Foi pra lá que rumamos.

 

Nos apresentamos ao Joe, que muito empolgado com a nossa história chegou a nos oferecer o bar como lugar de pouso – mas que também colocou um quarto no hotel de sua família à disposição – e com desconto! Foi o que preferimos.

 

Antes da noite terminar, Lucas e eu demos um pulo bar, comendo fatias de pizza e tomando o drink da casa.

 

Salto do Ventoso

 

Saímos às 11h do hotel Pieta, pela estrada da Fenachamp e cumprimos 11km até a microcervejaria Blauth Bier, um lugar imperdível pros amantes de cerveja, como eu! Nos sábados, a cervejaria traz uma atração gastronômica e na nossa vez foi food-truck de hambúrgueres – muito bem regados a goles de Weiss e IPA. Tudo de ótimo gosto.

 

Rafael Blauth, da família que dá nome à região, nos explicou a história do tal Desvio Blauth e também nos mostrou os interiores da fábrica e seus planos de expansão. Muito legal!

 

De lá fomos em direção a uma cascata que aparecia no nosso mapa: o Salto Ventoso. Nos deparamos com mais sete quilômetros de estrada de chão um pouco irregular e muita, muita descida.

 

O Salto fica num parque municipal, cuidado pela prefeitura de Farroupilha, que tem três mirantes, bar, banheiros e mata conservada. O ponto alto é passar pela furna do salto, ou seja, uma cavidade por trás da queda d’água! Proteja sua câmera da água e curta o caminho. Vale a pena!

 

 

Se quiser tirar fotos, o horário da manhã é o que tem sol de frente para o salto – e o do entardecer tem o sol caindo por trás dos morros.

 

Mas uma vez mais, fomos pegos desprevenidos: com pouca luminosidade, seria difícil voltar as subidas que saem do Ventoso e vão pro asfalto, até Garibaldi. Identificamos o dono de uma caminhonete cabine-dupla, que estava praticando escalada no parque, e perguntamos se ele poderia nos dar carona. Conseguimos!

 

Chegamos em Garibaldi a tempo de curtir a noite de rockabilly ao vivo no bar do Joe. Um belo dia!

 

Bento Gonçalves e Linha Eulália

 

Voltamos a rumar norte. Muita atenção na saída de Garibaldi, no sentido de Bento Gonçalves, pois a subida da chegada se transformou em uma veloz descida de saída. Mais perto de Bento, a estrada deixa de ter acostamento; é uma subida gradual, mas confortável. Em todo caso, a “capital do vinho” era grande demais pra gente. Almoçamos e seguimos viagem.

 

Uns dois quilômetros depois chegamos na região da Linha Eulália, que faz parte do roteiro Cantinas Históricas. Minha mãe, que é guia turística, nos indicou ao proprietário de uma das cantinas, o Jatir, da Casa Dequiogiovanni. Ele nos deixou guardar os alforges por ali enquanto visitássemos o parque de aventuras Gasper – mais uma atração da qual ouvimos pelo caminho, sem planejar quando saímos de Porto Alegre.

 

São apenas mais três quilômetros até o Gasper, parque com boa infraestrutura e diversas atrações: tirolesa, riachos, cascata, quadriciclo, paintball, escalada e... bungee-jump!

 

Decidi me redimir do refugo do salto de pêndulo na ponte de Arroio do Meio e comprei ingresso pro bungee-jump. A plataforma de salto se avançava sobre o alto de um precipício que dava vista para o Vale dos Vinhedos – de onde eu via Monte Belo e as vinícolas que visitamos. Ao meu lado, a grande cascata do parque corria, jorrando sobre a mata mais embaixo.

 

De capacete, cinturão, atado com cordas, tiras de velcro e mosquetões de aço, eu perguntei pela altura: mais de cinquenta andares até o chão – e uns dezessete até que o elástico se esticasse!

 

 

O portãozinho de ferro se abriu. Eu estava amarrado pelos pés e deveria cair de cabeça, para minimizar o efeito-chicote. Esta hora “separa os meninos dos homens”: saltar no vazio é tarefa nada, nada fácil. Tem gente que desiste, tem gente que pede pra ser empurrado – e confesso que pensei nessas opções também.

 

Mas encarei a paisagem de frente. Lembro de ter respirado muito fundo e de, algum jeito, ter me precipitado - já sem volta. Nada de pensamentos, nada de arrependimentos, nada de alegria: o que deu pra fazer enquanto eu caía era berrar! O chão se aproximava e eu sentia sentindo meu corpo inevitavelmente solto, despencando pelo ar!

 

Até que... enfim, o elástico se esticou! Eu voltei arremessado pra cima, tudo girando no meu campo de visão, de cabeça para baixo: a linda paisagem do vale, o paredão de pedra, a cascata perto de mim. Agora sim, a brincadeira começava a ficar legal! Tomado de adrenalina, emoção, feliz de estar vivo, solto no ar, eu soltei uma dezena de palavrões, rindo sozinho. Uma felicidade que tomou conta de mim.

 

E quando o elástico se retraiu completamente, instantes antes de eu começar a cair e a corda se esticar novamente, fiquei suspenso, parado por um instante em pleno ar, sem nada me segurando. Um segundo de gravidade-zero. Com tanta coisa passando pela cabeça, fui tomado por uma certeza instantânea: eu senti a fabulosa sensação de voar. Indescritível, eu garanto.

 

Momentos que eu não vou esquecer jamais!

 

Quando retornamos do parque Gasper, Jatir nos convidou para ficar na cantina. Nos ofereceu o amplo porão de pedra onde acontecem as refeições e onde ficam as barricas do vinho produzidos por ele – que também faz limoncello e vinagre. Jantamos com o Jatir por ali; cardápio tipicamente italiano! E acampamos no quintal pelo conforto da grama, mesmo.

 

O frio era tanto que antes de ir deitar seu Jatir me alcançou uma garrafa de vinho pra poder passar a noite mais aquecido! Sobrevivemos! Foi a noite mais gelada da viagem, próxima de 0oC.

 

(continua...)



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