Vales e Serra Gaúcha - parte 3

artigo publicado em 18/10/2016



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Caminhos de pedra

 

Saímos da Linha Eulália a tempo de passar novamente pela difícil Bento Gonçalves na hora do almoço: muitas ladeiras, trânsito, coisa de cidade grande. Evite!

 

Seguíamos a Pinto Bandeira, que no nosso mapa parecia ter alguns pontos de interesse pra se visitar. Até que chegamos à encruzilhada que dividia o caminho em duas direções: Pinto Bandeira e Caminho das Pedras - mais um dos roteiros turísticos serranos.

 

Olhamos em direção a Pinto Bandeira e o que víamos era um enorme de um morro. Nos disseram que a cidade era lá em cima! E foi assim que mudamos os nossos planos, ali mesmo. Caminhos de Pedra, lá fomos nós.

 

 

Uma decisão acertada! Era uma segunda-feira e o movimento de turistas estava muito baixo, comparado a um fim de semana. Tivemos um passeio muito tranquilo, agradável e em bom asfalto. Além disso, vários dos pontos turísticos, cantinas e oficinas estão prontos para receber ciclistas.

 

Paramos para almoçar no Cantuccio del Pomodoro e della Gasosa, o cantinho do tomate e do refrigerante natural. Almoço excelente e a preço justo! Ainda ganhamos a visita à produção dos 50 produtos derivados de tomate (isso mesmo: cinquenta!).

 

Perguntamos à simpática proprietária, Maristela, onde poderíamos dormir naquela noite. Ela falou de alguns locais da região, mas deixou os fundos do Cantuccio à disposição das nossas barracas. Bom demais!

 

Seguimos pelo caminho das pedras – que, aliás, recebeu esse nome por abrigar as primeiras casas em pedra, ou com porão de pedra, da imigração italiana. A tradição arquitetônica se mantém até hoje.

 

Visitamos a Casa da Tecelagem e a Casa da Ovelha até pararmos na Vinícola Salvatti & Barbera. Era uma indicação do filho do seu Jatir, da Linha Eulália, que falássemos com o dono da vinícola, seu Silvério. Ele demonstrou muito interesse pela nossa viagem, recomendou lugares para dormirmos e, de presente, nos deu uma garrafa dos seus vinhos para disfarçarmos o frio da noite!

 

Retornamos ao Cantuccio. O marido de Maristela, Célio, prontamente fez a gente se sentir em casa! Nos fundos da loja, um galpão de verão com piscina, banheiro e chuveiro, gramado e mata estava à nossa disposição. Para ficar melhor ainda, um fogão campeiro cheio de lenha para nos esquentarmos! Célio e Maristela foram muito generosos. Nos disseram que poderíamos até ficar mais um dia, se quiséssemos. Gratidão a eles!

 

 

Foi uma bonita noite de céu limpo, lua cheia, desfrutando da hospitalidade da Serra Gaúcha. Preparamos a nossa janta sobre o fogão campeiro e esvaziamos a garrafa de vinho. Saúde!

 

Para mim, a razão de estarmos viajando de bicicleta, sem planos fixos, era viver momentos como esse.

 

Subindo aos céus

 

Nosso segundo dia no Caminho das Pedras teve uma manhã muito interessante visitando a Casa das Cucas (onde fiz questão de me abastecer) e a Casa da Erva-Mate (onde vale fazer a visitação pela antiga ervateira!).

 

Dali, tínhamos mais nove quilômetros até a próxima parada: o famoso Santuário de Nossa Senhora do Caravaggio. Tomamos a estrada dos romeiros, sem saber o que esperar.

 

Conforme avançamos, avistei sobre os morros, imponente por sobre as árvores, o edifício do santuário. Ali, praticamente sozinho, naquela estrada de paralelepípedo, me senti um cruzado, um mascate do Mundo Antigo, que vê a cúpula da Santa Sofia quando chega em Istambul.

 

A estrada, que já era um pouco ruim de pedalar, tornou-se muito íngreme. Os últimos quilômetros prometiam ser difíceis. Foi quando percebi que toda subida aos céus demanda uma igual ascensão na terra. Os seres humanos constroem seus templos em morros e montanhas – dificilmente em grutas e buracos. Jesus, Abraão e Maomé, todos, ascenderam ou receberam a revelação no topo de algum monte.

 

Subir! Também a nossa jornada, de bicicleta, de aprendizado e de vivências era feita de subidas. De horas como essa, em que tudo vira meditação.

 

Enfim, chegamos no ponto mais alto da viagem: o santuário de Caravaggio, a 700m sobre o nível do mar. O sol despontava num céu azul, em bonita harmonia com a basílica amarelada. O silêncio era convidativo e passamos alguns minutos ali, descansando e contemplando a vista.

 

 

Descida ao inferno

 

A próxima parada era Farroupilha, conhecida cidade da Serra. Descendo desde o santuário, rapidamente chegamos até a entrada da cidade. E quem desce dos céus só pode chegar no... inferno.

 

Encaramos o trânsito mais pesado da viagem. Um volume impressionante de caminhões indo a Caxias do Sul, descendo a Porto Alegre, muitas pistas recheadas de automóveis – e tudo sem acostamento. Pra quem tinha passado os últimos nove dias em tranquilidade, passamos por um estresse sem comparação e até mesmo o risco de um acidente grave.

 

Lucas e eu nos reunimos assim que conseguimos sair da estrada, decidindo não entrar na cidade, mas seguir até São Vendelino. A cidade bem parecia ter o nome de uma cidade da serra italiana e de lá, num lugar mais pacato, poderíamos pegar o ônibus que voltaria para Porto Alegre.

 

Serra Italiana, que nada! Pagamos por mais um erro de planejamento: assim que saímos das margens de Farroupilha a estrada virou uma vertiginosa descida de mais de 17km. Quase dezoito quilômetros de pura descida, sem parar um instante sequer! Inclusive chegamos a 53km/h, velocidade acima do permitido na estrada!

 

 

Ou seja: nós já tínhamos saído da Serra. Claro que, para nós, tudo se traduzia em aventura! A viagem estava mesmo terminando; o ciclo estava se completando: quando chegamos a São Vendelino já estávamos de volta à altitude da nossa saída, em Venâncio Aires, dez dias antes. Subimos e descemos.

 

Mas... “faltou combinar com os russos! Mal chegamos a São Vendelino e ficamos sabendo que a cidade não tinha nem hotel, nem rodoviária! Inacreditável. Começava a anoitecer e ficar por ali não era opção. Subir tudo de volta era impossível. E seguir adiante, no escuro, pra encarar a RS-122, que chega a Porto Alegre com um fluxo intenso, era tarefa de risco.

 

Sem rumo, tendo que lidar com a situação, eu e Lucas andamos um pouco pela entrada da cidade, até um posto de gasolina. Ali, numa praça de caminhões, um casal descarregava um deles, com a caçamba vazia. Eu e Lucas nos olhamos. Sintonia fina!

 

Pedimos carona até Bom Princípio, a primeira cidade na direção de Porto Alegre, onde havia, com certeza, hotel e rodoviária. Conseguimos! Embarcamos as bicicletas na caçamba e subimos para a cabine com Robson e Katiele, casal muito jovem, junto da sua filhinha de colo.

 

 

O trecho foi tranquilo. Eu, que estava de férias, encerrando uma jornada – e embuído desse espírito - perguntei a Katiele quando eles também iriam terminar a viagem que estavam cumprindo.

 

Ela fez uma cara de quem não sabia bem e não conseguiu me dar uma resposta. Aí  perguntou a Robson quando eles terminariam a viagem. Robson, sem tirar os olhos da estrada, devolveu a pergunta: “Terminar?”. Foi num tom como se ele realmente não tivesse entendido o que eu quisesse dizer.

 

Mas Robson tentou responder: “a gente vai até um outro posto e pega carga, né”.

Foi aí que eu entendi: ele, Katiele e a filhinha não tinham um final pra viagem. A família de caminhoneiros vive na estrada. Eles vivem a estrada. Um arrepio me correu a espinha na mesma hora.

 

Foi certamente um final inesperado para a nossa cicloviagem. Mas com aprendizados até o último instante.

 

O caminhão nos deixou na entrada de Bom Princípio, onde passamos a noite. No dia seguinte retornamos a Porto Alegre.



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